PASSAGEM DE IDA

Encontrá-la assim, debaixo dos lençóis e tão vulnerável naquele apartamento sem porteiro e quase desabitado do Centro velho, tinha sido uma oportunidade única. Nunca tinha sido ciumento.  Muito pelo contrário, seu único interesse sempre fora o conforto e a possibilidade de sair da vida miserável que levava.  E nem gostava muito de mulher. Helena era sua salvação e até que estava atraente naquela manhã, com aquela camisola de renda negra...

Ciro estava perdido em pensamentos quando voltou a sí através do grito do amigo, que andava ao seu lado, pela estação:

- É ela, porra... olha lá, do outro lado da plataforma... tô falando, meu faro é muito bom, amigo...

Ciro mexeu apenas os olhos uns poucos centímetros pra direita de Ataulfo. Arfando, pelo peso da bagagem que carregava, resolveu encerrar a questão.

- Não, seu faro não é nada bom... -  e olhou pra maleta - Não é ela. 

Nesse exato momento o trem chegou e encobriu seu campo de visão. Ataulfo ainda correu pra ver se estava ficando doido, procurando pela mulher entre os vagões.

- É ela sim, cara. Ela vai fugir porra, vai fugir...

Ciro continuava impassível, com a enorme maleta térmica nos ombros.

- É, talvez fosse ela, detetive. Mas agora se foi. Sabia que ela fugiria assim que eu desse a primeira oportunidade... Não foi você mesmo que me disse, que ela e o tal vereador, o Rubens, estavam planejando? Só vim aqui pra termos a certeza...

- Eu te mostrei as fotos e o filme. Infelizmente. E justo com o vereador... Homem estranho, na Câmara Municipal corre a lenda que ele é meio afeminado, se casa apenas pra manter uma imagem de homem de família, maaacho!!!  - Piscou, o detetive - Ah, inclusive, escrevi  no relatório que te entreguei,  que o coroa tem um passado meio obscuro, sua segunda mulher sumiu do mapa em situações um tanto estranhas. A mulher nunca foi encontrada, e o Rubens nem foi considerado suspeito, homem honesto, colocou é uma fortuna de recompensa pra quem soubesse notícias... mas por falta de provas, o caso foi arquivado. O que a Helena viu nesse homem?  Não entendo. Se eu fosse ela, tomaria bastante cuidado com ele...

Sentiu-se feliz por ouvi-lo mencionar esse fato. Um ponto mais ao seu favor.

- Bom, mas vejo que se conformou. Faz muito bem. Essa mulher tem o capeta nos olhos... - e se benzeu ao dizer.

- É, tinh... tem sim...  - sorriu maliciosamente.

Ataulfo tirou um cigarro e ofereceu outro ao amigo.

- O Peri me garantiu que ela pegaria o trem pra disfarçar, mas o caminho dela só pode ser o aeroporto, talvez o Campo de Marte. O Rubens tem helicóptero à disposicão e...

Ciro interrompeu:

- Acho que é melhor nos despedirmos, detetive. Ainda tenho muito trabalho a fazer. Aliás, essa viagem de trabalho veio bem à calhar... Sua missão está cumprida. Deposito seus honorários assim que chegar ao meu destino. Um dia a coisa toda se esclarece...

- Ok, mas me telefone se precisar. Apesar que a essa hora, a Helena já deve estar beeem longe.

Deu uma última olhadela pela estação, conferiu o relógio de pulso e se foi.

Quando Ataulfo sumiu por trás da banca de jornal,  colocou a enorme maleta no chão e decidiu ir pra Rodoviária. Checou o bolso do paletó, pegou um documento e sorriu ao ler as palavras “comunhão total de bens”. Depois, queimou numa lixeira o bilhete deixado pra ele com recortes de jornal: “Te espero em São José da Coroa, meu amor. Beijo. Rubens”.

Foi se encaminhando célere, para o terminal rodoviário. E não estava sozinho.

Dentro da maleta, em 16 pedaços, estava o corpo da esposa infiel que o amigo detetive julgava ter fugido e viajado pra beeem longe.

É. Em parte ele não estava errado...

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 12h58
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LA  JOCONDE

Saiu do Louvre pela porta da frente, em troca de uma chupada no porteiro. Caminhou alguns passos e entrou na primeira porta que vira aberta, sob neon vermelho. Cantarolou e bebeu sozinha taças e mais taças de champagne, fumou haxixe e armou um strip-tease. Vomitou em cima dos pretensos amantes que a bolinavam e mijou em pé no banheiro. Pegou dois homens pelo braço e saiu trôpega pela noite parisiense. Monalisa tinha fogo no rabo. E um sorriso gelado nos lábios...

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 17h48
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Love Stories

(Episódio 1 - Qualquer semelhança com situações, personagens ou diálogos não terá sido mera coincidência...rs)

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 00h58
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 CÍTRICA

Só usava minúsculas calcinhas laranja e limão, batom cereja nos lábios e duas gotas de essência de morango atrás das orelhas. Mas a filha do quitandeiro mantinha-se pura. Não deixava ninguém comer sua "frutinha".

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 17h58
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 Escrito por F. Reoli às 11h30
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CÁFTEN

Pensou em gritar na cara da mulher: "- Sua puta", no momento em que a viu vestida com aquela micro-saia vermelha. Mas não, ela nunca lhe dera por dinheiro. Pros outros sim, pra ele nunca. Sem um vintém no bolso - como sempre -, respirou fundo e sorriu amarelo, entrando sem pestanejar, no carrão importado dela.

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 10h54
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À DERIVA

Só depois de ler a folha branca das minhas retinas é que reencontrei tua pele incandescente no espaço deixado entre as palavras. Desabitei a casa dos anjos tortos que faziam crepitar a fogueira e me joguei ao mar dos teus braços, dentro de uma garrafa...

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 17h40
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JUNK FOOD(IDO)

Sou um junkfoodista nato!  Ou melhor, um junkfoodido nato! Só queria saber porque os melhores acepipes ficam mais saborosos depois de nadar numa piscina cheia de óleo de soja e a água não tem um pouco de álcool em sua fórmula. Pastelzinho no Hugo? Coxinha no Frangó? Sardinha à milanesa no Sabiá? Questões de tirar o sono - até mesmo dos cardiologistas...  Me mandam malhar e eu escrevo. E aí dizem que escrever é malhação de preguiçoso, apesar que acalma e mata a fome. Será? Poemas só escrevo no balcão do boteco, com cerveja, amendoim e sal debaixo da língua. E um cigarrinho entre um e outro. Haja pressão. E por falar em escrever, ainda ontem estava eu no Sabiá rabiscando - num guardanapo engordurado de torresmo - o meu protesto: abaixo o colesterol e o preço da cerveja. E salve a empadinha de 1 Real. Tô economizando pro cateter...

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 18h21
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3 RECADINHOS...

Agora disponho aqui no blog - à direita, logo abaixo da foto do meu perfil  - de um muralzinho de recados e (ou) um chat, onde poderemos conversar on-line, trocar recados e onde também deixarei dicas de coisas que curto pra vocês visitarem, caso haja interesse. Essa ferramente será muito útil para uma interação maior com todos e para que o espaço do blog seja mais aproveitado com meus textos do que com meus recados. (rs)


(18.07.08 - 23h17)  Com um pouco de atraso - o filme tem estréia hoje no circuito nacional -, queria deixar essa dica sobre o filme "Nome Próprio", dirigido por Murilo Salles, com Leandra Leal e baseado na obra da blogueira e escriba Clarah Averbuck, que retrata exatamente esse universo virtual, esse mundo blogueiro em que vivemos, onde o computador deixa de ser cenário e acaba virando personagem. Eu queria falar muito aqui das impressões sobre o que vi no blog, mas acho que o link vai poder dizer e mostrar bem mais do que eu queria. O filme em sí ainda não assisti, mas pelo blog fiquei tentado e vai ser a segunda coisa que farei amanhã, a primeira será o casamento de um grande amigo-irmão que tenho. Pois é, ainda existem loucos como eu que acreditam na vida à dois. Mas casar às 10 da matina, é sacanagem...rs. Não deixem de assistir as performances ao vivo pela web cam de Alessandra Cestac no blog, às 21h, segundas, quartas e sextas - é uma artista de primeira, cujas intervenções retratam bem o caos, a sensualidade e a beleza da cidade e da natureza humana. (Alessandra é responsável pelo lambe-lambe que decora o quarto da personagem principal), e de curtir as fotografias, making of e a trilha sonora imperdível. Esperem carregar a página toda, demora uns segundinhos mas vale muito a pena. É só clicar aqui 


Ah, e não deixem de ler os textos de um monte de gente bacana na mostra Coletivo:Kaos e de mais um textinho inédito desse que vos fala, logo aí abaixo.

 Abraço pros cuecas e beijo para as moças.



 Escrito por F. Reoli às 19h14
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QUAI DE BOURBON 

Fechou a porta atrás de sí deixando pra fora um pedaço lilás de fim de tarde. Com seus olhos nublados de fadiga olhou por todo o cubículo mofado e em desordem. Nunca fizeram parte um do outro, ele e o lugar. Lugar nenhum. A cama soltou um rangido agudo, quando sentou e apertou o botão do abajour. O bloco de anotações ainda guardava sob a poeira a célebre frase de Camille Claudel à Rodin: “Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta” (Il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente), que ele copiara à lápis num guardanapo de papel - sem saber porque -, da porta do banheiro de algum café sujo que estivera. Frases. Sempre as copiava embora nunca as entendesse. Talvez fosse a forma que encontrasse de fazer a vida ainda mais complicada. Quanto mais palavras, mais confuso o significado da existência. Do outro lado das paredes descascadas ficava o futuro e alí, naquele ambiente claustrofóbico, só conseguia ouvir os sons do passado açoitando o presente. Se soubesse ainda como fazer, seria um excelente momento para derrubar algumas lágrimas, mas a fisionomia continuou impassível, sem demonstrar nenhuma emoção. Fazia algum tempo que perdera a capacidade de sentir amor por sí mesmo ou pelo outro. Uma sequência infindável de experiências frustradas. Vida vazia. Só de pensar, o ar doía cada vez mais em seus pulmões. Precisava de um trago. Ergueu do chão sua única companheira: a garrafa de whisky. Deitou-a sobre o copo. Um gole longo. Ela sim valia alguma coisa: inebriava os sentidos, soprava a solidão e era quem embalava seu sono, embora também trouxesse os mais sombrios pesadelos. Até ela - a garrafa - era a salvação de alguém, tinha sua razão de ser. Ele não. Já fora filho, mas nunca seria pai ou amante. Aliás, não seria nada mais, nem uma lembrança. O tempo era seu inimigo invisível. Que a noite o engolisse. A faca jazia sobre o criado-mudo, refletindo a fraca luminosidade da lâmpada em sua lâmina. O copo de whisky barato pela metade e sua cara com a barba por fazer refletida no espelho da cômoda. Acendeu um cigarro, tragando profundamente. Bebeu num gole só o liquido âmbar que restava no copo. Decidido, empunhou a faca e cravou a lâmina com força em seu coração. Até o cabo. Um corte profundo, a última tentativa de procurar o amor no único lugar onde ele ainda julgava existir.

Morreu agonizando, na velha cama, sem nada encontrar.

 

© Fábio Reoli

 

* Escrevi baseado na música "A Montanha Mágica", do Legião Urbana. Para ouvir, clique aqui.



 Escrito por F. Reoli às 18h09
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COLETIVO: KAOS

"Coletivo: Kaos" tem o intuito de externar essa forma incessante de ir e vir coletiva e, ainda assim, individual aos olhos de cada um. Sensações que se movimentam pelos nossos olhos cotidianamente e que, muitas vezes sem percebermos, conseguem extrair uma quantidade absurda de histórias, ilustradas pela gritante quantidade de informações que envolvem os frequentadores de um caótico transporte público da grande - e nem um pouco humana - cidade de São Paulo.

Fotos: Fábio Reoli (pelo celular)

 

   

    

   

   

  

  

   

  

                  

                 

                

                 

MEU CONVITE...

Escribas, uni-vos!

Fiquem a vontade para escolher um desses retratos e criar um poema, uma história ou uma impressão em cima desse meu olhar caótico sobre o transporte público e a maneira de enxergar poesia onde nem existe.

 A idéia dessa mostra virtual é poder interagir o que vejo com o impacto dos olhos de vocês, quiçá, transformado em palavras. Esse ir e vir sem destino certo, uma troca de olhares, palavras e idéias inquietantes em cima desse universo convulso chamado dia-a-dia. 

O texto escrito pode ser deixado aqui mesmo, na caixa de comentários do blog, citando a fotografia em que foi inspirado.


... E MEU AGRADECIMENTO, 

Mais uma vez, agradeço o interesse e a colaboração de todos que escreveram e ajudaram a tornar esse projeto fotográfico-literário "Coletivo: Kaos" num verdadeiro sucesso. Foram 30 textos (de 15/06 até o encerramento ontem, 15/07/08), todos muito inteligentes e que conseguiram retratar de forma magnífica as minhas fotografias sobre esse caos urbano em movimento, que é o transporte público das grandes cidades. Já penso numa segunda mostra num futuro próximo.

 Prometo que publicarei todos os textos que chegarem, mesmo após a data e convido todos que passarem por aqui para que leiam os textos, comentem, troquem idéias e se possível, confiram os blogs dos colaboradores, todos muito interessantes e sempre com algo a dizer. Vale a pena!

É só clicar no link abaixo e "embarcar" nessa viagem:

http://coletivokaos.zip.net 



 Escrito por F. Reoli às 15h18
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Só um oi...

...ou um salve aos amigos e amigas escribas e gente que lê.

Achei fantástica essa matéria com o dramaturgo Mário Bortolotto para a revista "TRIP", em comemoração ao "Dia dos Namorados" e achei legal deixar a dica pra quem quiser ler. A reportagem é inspirada no filme "Flores Partidas", de Jim Jarmusch.

No caso, o Mário tinha que procurar algumas de suas ex-namoradas e tentar entender, depois de tanto tempo, o porquê da relação não ter dado certo. Um resgate fodido do passado. E o cara foi. (rs) 

Vale a pena. Para ler clique aqui

* Ah, quanto a mim, estou numa correria ímpar por conta do trabalho. Inclusive, na edição de junho da revista Joyce Pascowitch, no "especial de Dia dos Namorados", tem um texto escrito pelo Nando Reis, ilustrado por uma foto que fiz num dos últimos shows dele em São Paulo e escolhida pelo próprio. Tô muito feliz. Cansado, mas feliz...(rs). Ainda, no tempo que sobra, estou preparando uma exposição fotográfica virtual que postarei aqui dentro de alguns dias, onde farei um convite pra vocês também. Aguardem.

No mais, beijo pra elas e abraço pra eles!

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 14h21
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BRUMA

céu da boca nublou  

nem os pés que me levam

sabem bem onde eu vou 

 

estou?      

 

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 16h59
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CONSTÂNCIA

Obstinado, procurava por ela
em cada boceta que fodia.
Um dia a encontraria.

Assim. Sem poesia.

 

 © Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 14h29
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AOS
INSONES

Impossível apagar, retirar, extirpar
a lua do céu. Antes, arranque seus
próprios olhos ou não a encare.
Solidão é opcional. Céu e saudade, não.

A lua só não existe pra quem dorme cedo!

 

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 11h11
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PASSADO TEM DOIS "eSSes"
DE SAUDADE

 (Ele)

   "A sombra da noite desenha em mim antigas memórias, são seus olhos-meu reflexo, esboçados nas paredes amarelas da história. Você deve estar num canto da sala, olhando pro pedaço de céu sem lua que ainda resta, abraçada pela melodia daquele velho disco de blues que embalou beijos mais carmins do que azuis. Miro os botões do interfone. Respiro. Tantas lembranças, tanto tempo... Aceso ou apagado estará seu desejo, seu apartamento? Será cheio de cor ainda o seu sorriso? Acho que vou gritar seu nome. Preciso."

(Ela)

  

"Eis-me lágrima neste momento, molhando paredes vazias e desenhando você no pensamento. Neste encontro proposital com o passado, percebi o quanto não sinto falta do presente. Fragmentos de loucura e sanidade, frutos dessa noite sem lua. Ainda a pouco, jurei ouvir você gritar meu nome. Devo estar doente. Saudade."

 

    Madrugada fria.
    Chovia, quando amanheceu.
 

 

© Fábio Reoli

 

* Escrevi baseado na música "A Via Láctea", do Legião Urbana. Para ouvir, clique aqui 



 Escrito por F. Reoli às 14h14
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QUAZI VIDA NA "VENEZA" DUS POBRI

"Oji, tar camalião, mi tornei da mema cô dus prédio e dus posti qui custuma respondê os meus bum dia e bas noite, mais du qui quarquê pessoa qui passa invorta em seus póprio pobrema, aqui im riba da ponti, na cidadi grandi. Mais pelu menus tô longi daqueli par di zóio di fogo qui mi dava a vontadi de girar sobri eu memo. Cruis credu! Aqueli par di zóio qui mi feiz deixá us amigo, a certesa, u violão...

Oji quem mi acumpanha é as lembransa, inquantu tu fais sombra nu isquecimentu. I cum qui velosidade tu si isquesseu. Num lembra im nada aquelas lágrima dirrubada divagá, qui neim passu di tartaruga, na hora qui si dispidiu di mim. Chegô até memo a mi sigurá pelo cóis da carça e sortá um “fica, beim”, cum aquela voiz móli. Vim simbora cum u saco chei de roupa i as véia cantiga qui eu ti escrivia nas noiti inluarada. Mas u qui mais mi pezava nu ombru era a tar sensasão du seu sofrimentu. Tinha dó, ti imaginei chorano pelus cantu, vistindu u vistido pretu qui tu uzô quandu sua tia foi deça pra mió.

Mas vimbora pra ti isquecê memo, tantu qui neim u violão eu trusse. Mas essi pensamentu duro poco. As urtima informação qui tivi, i óia qui queim segredô é genti di confianssa, foi di qui tu foi vista cherandu arco di bibida e pitandu toda filiz, cuntenti, mais aqueli safadu du donu da venda, lá na budega do Tonhu. Oji, si eu fosse iscrevê uma cantiga, seria premeru lugá nas rádio AM.

E inda agora poquim, passou um moribundu comu eu i mi pidiu um cigarru. Eu só tirei um dus urtimo Bermonti qui eu tinha no borso e intreguei pra eli, purque quiria tentá lê a tatuage qui eli tinha nu brasso. I lê, memo qui muito mar i divagá é um dus poco tisoro qui tenhu na quazi vida qui levu nessi mundaréu di estranhu. Eli dice que tinha saidu a poco da cadeia pur te assertado em cheiu os corno di uma messalina – qui eu nem sei u qui é, mas devi di se iguar tu, pelu nome feiu. I a tatuage tinha iscrito u qui fais tempim qui eu pensu: “Amor só de Mãe”. Achu qui o moçu teim um quê di sabidu..."


“- Issu divia sê uma carta pra ela, mais joguei lá pra baxo da ponti. Acendi um cigarru e oiei pro fileti dágua ismilinguindu o qui era essi paper. U riu é razu. Num sei si tenhu vontadi de chorá, di vortá ou di pulá. Qui sardadi du meu violão”.


© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 14h43
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NEM "EXATA" E MUITO MENOS "HUMANA"
a matemática da cidade grande

Nem São Paulo, nem Rio de Janeiro e nem Belo Horizonte ou Brasília. Chega das grandes cidades com seus prédios cinza-chumbo e buzinaços de manhã até de noite. Eu quero é pedaço de céu azul e lilás, do sol brilhando sem nuvens e de poder sentir a areia e a terra debaixo do meu pé. Trabalho? Só o de colocar o anzol na água e levar o copo e os lábios da amada à boca, saborear os sabores do mar e os frutos da terra. Números então, nem pensar. A não ser o de contar as nuvens deitado na grama. O relógio vai ser feito de sol e lua. Dia enquanto amarelo, tarde enquanto laranja e azul marinho quando noite. E claro que vai dar pra perceber até os tons de amarelo, rosa e lilás, no decorrer dessa dança simbólica dos astros. Enfim, relaxar e respirar sem a interferência do monóxido de carbono e seus pares, a não ser o daquele cigarrinho de vez em quando. E que a lembrança de um congestionamento - você dentro de uma lata de sardinhas com mais 50 sardinhas - às seis da tarde, hora da ave-maria, possa ser varrida pelo sossego e contemplação, como deveria. Sem trânsito. Tudo, tudo é de enlouquecer nas grandes cidades. Poluição, gente mal-educada, violência... mas o trânsito, é que anda - ou melhor, não anda - de matar. Os carros não saem do lugar apesar das rodas, as sensações não são certas, os sentimentos são turvos e os olhos ardem. Até mesmo a matemática deixa de ser uma ciência "exata" e, ainda assim, nada "humana" na hora do rush ou no rush fora de hora: definitivamente, é melhor ter duas pernas do que quatro rodas!

© Fábio Reoli

 * São Paulo congestionada, na última sexta-feira (9), às dez e meia da noite. Pasmem!



 Escrito por F. Reoli às 17h04
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RELICÁRIO

 

 

Na caixa de papelão envelhecida, envelhece a pedra do inesquecível entre horas sem ponteiro, pétalas ressecadas e saudade irreversível. Dançam ali, ciúme e verdade... estupidez e vontade... vícios e virtudes fantasiados de improviso. Há a chama vermelha que arde, guardada entre a lenha que acendia teu sorriso onde a chuva amena do céu de noite, dissolve intenções em poema.  

© Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 13h05
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OUTONO

              O sol veio e beijou o vento, mudando o cheiro da flor. Um sopro perfumado e contagioso (de amor), espalhado pelo amarelo ouro e azul de um ponto qualquer do céu. E só no lilás da quase noite é que encontro a alegria da cor canela da sua pele, onde deságuo em véu o meu sorriso e te molho com as lágrimas castanhas que caem dos meus olhos... 

© Fábio Reoli 



 Escrito por F. Reoli às 18h59
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