Escrito por F. Reoli às 17h57
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O ANDARILHO...
...e uma história que não se perdeu pelo Centro Velho de Sampa

O céu plúmbeo fitou seus olhos pelo vão da telha. Não tinha a menor vontade de escalar as paredes cinzas que a solidão ergueu com cimento e ecos de sua quase voz. É indiferente em relação ao trânsito, toques de celular ou telas de computador. Só sente o chão frio sob seus pés descalços. Aqui e alí alguns pedaços de papelão tornam menos duros os seus passos. Já chegou a contar. São sete passos da calçada até os trapos onde repousa. E mais cinco até a parede oposta, onde despeja milhares de palavras com um toco de lápis carcomido. Não pensa em significados, só escreve compulsivamente, de lábios cerrados. As vezes abre só o suficiente pra passagem da língua viscoça, quando muito secos. E lá vai a mão, desenhando mais e mais palavras que a boca esqueceu como dizer. No fundo dos bolsos, bitucas de cigarro e uma caixa de fósforos. Seus tesouros. Faça calor ou frio, improvisa uma fogueira com as poucas cédulas que tanto trabalho lhe rendeu no semáforo e esboça um sorriso irônico, quase louco. Generosidade tardia. No isopor, meia garrafa de pinga, a alma e latas vazias. Nenhuma companhia.
Texto e foto © Fábio Reoli
Escrito por F. Reoli às 15h31
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