CRÔNICA DE BALCÃO II

Tem alguma coisa melhor que beijar? Tem, é claro, mas o beijo é o prenúncio das delícias maiores...(rs) O beijo está presente em cada momento do cotidiano, seja o beijo que a gente vê nas ruas, nos cantinhos escuros, contra os muros... são casais e mais casais se dedicando ao saudável ato da "beijação". Esse fluxo desconexo de sensações que dois seres humanos podem encontrar. Pude sentir isso mais uma vez no final de semana. Estava num bar chiquinho aqui da Vila Olímpia com um grupo de amigos, envolto por uma concentração de bolsas da Prada e perfumes Marc Jacobs. Até aí, tudo bem. Mas às vezes, mesmo quando a gente está cercado do melhor e do luxo, aparece lá no fundo do coração, da alma, do cérebro, sei lá porque, uma sensação esquisita. Uma sensação de que algo está fora de sintonia... Percebi isso quando estávamos alí numa mesa da calçada e entre um congestionamento infernal de carros importados em frente o bar, eu vi um casal de catadores de papelão - sabe aqueles que andam por aí puxando aqueles carrinhos de madeira -, dando um belo beijo na boca, daqueles que a gente sorri e pensa "guenta coraçãããão"...(rs) Entre belas loiras – falsas ou não -, com seus namorados mauricinhos, eles também se beijavam sem se importar com nada. Por um instante a carroça ficou tão parte da paisagem quanto os carros importados que por ali circulavam. Tudo isso, só pra me lembrar que não precisa de dinheiro, de drinks com vodka importada, de prosecco francês e garçons engomadinhos ao redor pra se sentir o outro, não existem panos de fundo ou cenários mágicos para o beijo acontecer, mesmo porque quando beijamos estamos de olhos fechados e o próprio beijo cria a viagem... Sinto que tudo o que a gente precisa, de verdade, além de nossa boca para beijar, é uma boa boca para ser beijada. O simples pode mesmo ser visto como o mais importante...
© Fábio Reoli
Escrito por F. Reoli às 16h21
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