CRÔNICA DE BALCÃO

 

 

Noite dessas resolvi dar uma parada numa padaria perto de casa, pra tomar uma cerveja, bater papo e dar uma relaxada depois do trabalho. Pedi a gelada, acendi um cigarro e fiquei por ali, lendo as notícias do dia e esperando uns amigos. Como quem gosta de escrever sempre acaba encontrando um motivo para um poema, uma crônica ou coisa parecida, percebi que havia um senhor sentado umas duas banquetas depois da minha e um tanto inquieto. Ele ajeitava duas taças simetricamente sobre o balcão, com o olhar distante. Notei que também havia uma garrafa de vinho, num baldinho de gelo perto dele e uma pequena rosa embrulhada em papel vermelho, dessas que se vendem as dúzias nos semáforos. “Love´s in the air” – pensei. Continuei por ali, bebericando minha cerveja até que o tal homem se levantou. Uma senhora muito bonita e perfumada - pelo rastro que deixou ao passar -, havia acabado de chegar e se materializava, em frente a ele. Os olhos dela revelavam traços de alegria e excitação. Não pude deixar de notar a maneira como as pupilas quase se fechavam cada vez que ela olhava pra ele. De onde eu estava dava pra ouvi-lo gaguejar alguma coisa, mas o timbre da voz era da mais pura alegria – ou alívio. Parecia que o tal casal não se via há tempos e que ali, naquele instante, acontecia um reencontro. Acabei por me divertir com a situação, voltei a minha cerveja e ao meu jornal e acabei até esquecendo um pouco do casal. Acho que eles ficaram uma boa hora por ali porque no anúncio da minha terceira cerveja, eles se levantaram. Virei o pescoço a tempo de vê-la se inclinar e beijar-lhe o canto dos lábios. Ele ali, estático, vendo-a ir. Ela ainda olhou uma última vez pra traz e lhe sorriu, com a rosa em papel vermelho nas mãos – e quem sabe – no coração, antes de sumir pela porta da frente. Um sorriso daqueles que somente uma  mulher apaixonada e disposta a perdoar - sabe-se lá o que -, é capaz de esboçar. E ele alí ainda,  com um cigarro apagado entre os dedos, uma espécie de sorriso embriagado e uma pequena marca de batom entre a boca e a bochecha. Então, subitamente, se virou para mim e me pediu o isqueiro emprestado. “-Minha mulher... ex-mulher... – disse apontando a saída - ...levou o meu fogo com ela... levou tudo com ela...” Ele acendeu o cigarro, me devolveu o isqueiro e se despediu. Agora era eu que sorria distraído, brincando com o isqueiro. Olhando para a pequena labareda que saía dele, pensando: a chama do amor deles ainda estava acesa....

 

  © Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 13h49
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HAI KAI

o açúcar do sorriso mistura

o sal da lágrima: 

soro que cura! 

  © Fábio Reoli



 Escrito por F. Reoli às 11h08
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