Momento "relax" captado pelas lentes do amigo e também fotógrafo, Evandro Silva
* No bar, perguntado a respeito desta guerra declarada entre "Twitter" e blog, cheguei a conclusão que os dois podem viver harmoniosamente, pois pra mim o "Twitter" é o resumo e a divulgação das ideias. Blog é a realização das mesmas...
Amanhece. Conhecemos de cor o caos e o cinza que a cidade veste. Transporte coletivo, rostos miscigenados, andança sem fim. Incontáveis caminhos: periferia, Centro, Jardins. E a cidade, nos conhece?
* O texto e a foto acima fizeram parte de um projeto que criei entitulado "Coletivo Kaos" , com fotos feitas por mim, pelo celular e textos escritos por blogueiros amigos. Pra quem já viu, vale relembrar e pra quem não viu o blog, é só clicar aqui.
Penso em fazer um outro projeto semelhante num futuro próximo e aceito sugestões de temas urbanos para eu fotografar. Valeu!
...e uma história que não se perdeu pelo Centro Velho de Sampa
O céu plúmbeo fitou seus olhos pelo vão da telha. Não tinha a menor vontade de escalar as paredes cinzas que a solidão ergueu com cimento e ecos de sua quase voz. É indiferente em relação ao trânsito, toques de celular ou telas de computador. Só sente o chão frio sob seus pés descalços. Aqui e alí alguns pedaços de papelão tornam menos duros os seus passos. Já chegou a contar. São sete passos da calçada até os trapos onde repousa. E mais cinco até a parede oposta, onde despeja milhares de palavras com um toco de lápis carcomido. Não pensa em significados, só escreve compulsivamente, de lábios cerrados. As vezes abre só o suficiente pra passagem da língua viscoça, quando muito secos. E lá vai a mão, desenhando mais e mais palavras que a boca esqueceu como dizer. No fundo dos bolsos, bitucas de cigarro e uma caixa de fósforos. Seus tesouros. Faça calor ou frio, improvisa uma fogueira com as poucas cédulas que tanto trabalho lhe rendeu no semáforo e esboça um sorriso irônico, quase louco. Generosidade tardia. No isopor, meia garrafa de pinga, a alma e latas vazias. Nenhuma companhia.
A boca indecifrável sorrindo erótica e infantil, quase dúbia, na fotografia em preto e branco, eternizando a mulher-menina que brinca e brilha sem precisar ofuscar os olhos. Do tempo sem trégua, entrega, distâncias geográficas e meras cronologias. Atemporais são só as sensações, sibilando sussurros nos pulmões da tarde. Um momento e eu pensamento, dentro e fora de você, curioso, hei de descobrir um quê de gozo, no vai e vem das palavras.
Caneta, dedo na fuligem, grafite e nós rabiscando palavras que os anjos não ensinaram, em seu falso moralismo celeste. Você escreve frio na barriga. Eu, roda gigante, paisagem, contornos. Letras fundidas na subida do corpo e na queda vertiginosa da roupa. Sussurros e estrelas pelo quarto desarrumado, a garrafa vazia, a tv fora do ar e a história que ficou lá atrás, fugiu com o vento pela janela. E agora você dormindo com faniquitos de sonho bom nas pálpebras. Tinha um "S" de saudade escrito de batom no espelho, que você preencheu com um "O" e um "L". Sol que acende em mim a manhã azul dos teus braços.
A flor amarela balançava com vento e areia, cercada de fogo e das pétalas brandas que despejavam água lilás. A menina encheu sua taça de papel e banhou a flor. O caule aumentava, na medida em que o lilás da água ia sendo absorvido pela areia, afastando lentamente o deserto em volta dela.
A flor era uma ilha cercada pelo mar púrpura e suas pétalas caídas, transformavam-se em degraus imaginários, por onde a menina descia com a ilha-flor presa entre os dentes até chegar na raiz, encontrando no solo, resquícios de perpetuação. Abraçou forte a flor e plantou ali, a amarela. Olhou enternecida a multiplicação dentro e fora dela, flor e menina balançando, com mais vento e areia.
A flor amarela, agora, eram flores, cercadas de fogo e das pétalas brandas que despejavam água lilás. Uma outra menina apareceu com uma taça de papel nas mãos. E outra. E mais outra.
Galera, estou meio ausente do blog, por motivos óbvios...(foto). Tive uma torção de tornozelo no domingo e como estou engessado e sem poder por os pés no chão, tenho vindo pouco ao computador. Mas em breve estarei postando novas criações e tomando uma cerveja gelada na casa de vocês (blogs)...rs
Queria agradecer a todos que por aqui passam e em especial à Aline Aimée, que é professora e deixou um comentário que me roubou sorrisos, dizendo que o conto abaixo foi usado por ela em uma de suas aulas e que os alunos gostaram muito. Acho que pra gente que escreve não existe satisfação maior do que ser lido e, virar tema de aula, realmente me emocionou e me deixou muito feliz.
Bom é isso, um beijo grande à todas e um abração em todos.
Encontrá-la assim, debaixo dos lençóis e tão vulnerável naquele apartamento sem porteiro e quase desabitado do Centro velho, tinha sido uma oportunidade única. Nunca tinha sido ciumento.Muito pelo contrário, seu único interesse sempre fora o conforto e a possibilidade de sair da vida miserável que levava. E nem gostava muito de mulher. Helena era sua salvação e até que estava atraente naquela manhã, com aquela camisola de renda negra...
Ciro estava perdido em pensamentos quando voltou a sí através do grito do amigo, que andava ao seu lado, pela estação:
- É ela, porra... olha lá, do outro lado da plataforma... tô falando, meu faro é muito bom, amigo...
Ciro mexeu apenas os olhos uns poucos centímetros pra direita de Ataulfo. Arfando, pelo peso da bagagem que carregava, resolveu encerrar a questão.
- Não, seu faro não é nada bom... - e olhou pra maleta - Não é ela.
Nesse exato momento o trem chegou e encobriu seu campo de visão. Ataulfo ainda correu pra ver se estava ficando doido, procurando pela mulher entre os vagões.
- É ela sim, cara. Ela vai fugir porra, vai fugir...
Ciro continuava impassível, com a enorme maleta térmica nos ombros.
- É, talvez fosse ela, detetive. Mas agora se foi. Sabia que ela fugiria assim que eu desse a primeira oportunidade... Não foi você mesmo que me disse, que ela e o tal vereador, o Rubens, estavam planejando? Só vim aqui pra termos a certeza...
- Eu te mostrei as fotos e o filme. Infelizmente. E justo com o vereador... Homem estranho, na Câmara Municipal corre a lenda que ele é meio afeminado, se casa apenas pra manter uma imagem de homem de família, maaacho!!!- Piscou, o detetive - Ah, inclusive, escrevino relatório que te entreguei, que o coroa tem um passado meio obscuro, sua segunda mulher sumiu do mapa em situações um tanto estranhas. A mulher nunca foi encontrada, e o Rubens nem foi considerado suspeito, homem honesto, colocou é uma fortuna de recompensa pra quem soubesse notícias... mas por falta de provas, o caso foi arquivado. O que a Helena viu nesse homem? Não entendo. Se eu fosse ela, tomaria bastante cuidado com ele...
Sentiu-se feliz por ouvi-lo mencionar esse fato. Um ponto mais ao seu favor.
- Bom, mas vejo que se conformou. Faz muito bem. Essa mulher tem o capeta nos olhos... - e se benzeu ao dizer.
- É, tinh... tem sim... - sorriu maliciosamente.
Ataulfo tirou um cigarro e ofereceu outro ao amigo.
- O Peri me garantiu que ela pegaria o trem pra disfarçar, mas o caminho dela só pode ser o aeroporto, talvez o Campo de Marte. O Rubens tem helicóptero à disposicão e...
Ciro interrompeu:
- Acho que é melhor nos despedirmos, detetive. Ainda tenho muito trabalho a fazer. Aliás, essa viagem de trabalho veio bem à calhar... Sua missão está cumprida. Deposito seus honorários assim que chegar ao meu destino. Um dia a coisa toda se esclarece...
- Ok, mas me telefone se precisar. Apesar que a essa hora, a Helena já deve estar beeem longe.
Deu uma última olhadela pela estação, conferiu o relógio de pulso e se foi.
Quando Ataulfo sumiu por trás da banca de jornal, colocou a enorme maleta no chão e decidiu ir pra Rodoviária. Checou o bolso do paletó, pegou um documento e sorriu ao ler as palavras “comunhão total de bens”. Depois, queimou numa lixeira o bilhete deixado pra ele com recortes de jornal: “Te espero em São José da Coroa, meu amor. Beijo. Rubens”.
Foi se encaminhando célere, para o terminal rodoviário. E não estava sozinho.
Dentro da maleta, em 16 pedaços, estava o corpo da esposa infiel que o amigo detetive julgava ter fugido e viajado pra beeem longe.
Saiu do Louvre pela porta da frente, em troca de uma chupada no porteiro. Caminhou alguns passos e entrou na primeira porta que vira aberta, sob neon vermelho. Cantarolou e bebeu sozinha taças e mais taças de champagne, fumou haxixe e armou um strip-tease. Vomitou em cima dos pretensos amantes que a bolinavam e mijou em pé no banheiro. Pegou dois homens pelo braço e saiu trôpega pela noite parisiense. Monalisa tinha fogo no rabo. E um sorriso gelado nos lábios...